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Contos de Nox #4: Travelers

  • Foto do escritor: Spin
    Spin
  • 9 de jun. de 2023
  • 4 min de leitura

Lembro quando as viagens no tempo já não eram mais novidade. Depois que RODEN-3, a IA mais desenvolvida no mundo formulou e deixou os cientistas e físicos abismados pela possibilidade e pela simplicidade de se realizarem viagens no tempo, o turismo temporal se tornou o negócio mais rentável em todos os continentes.


É claro que no começo, aquelas viagens só eram acessíveis aos poucos bilionários, políticos, celebridades e aos grupos privilegiados que não poupariam nada para ter a chance de maior engajamento econômico-social e também de fazer o que todo ser humano sempre sonhou.


Isso não durou muito tempo quando detalhes sobre várias limitações nas viagens vieram a público diariamente pelos noticiários, como por exemplo; que as viagens só eram possíveis dentro de um período entre o presente e o ano de 1991. Ou seja, qualquer viajante poderia voltar no tempo em qualquer ano dentro do período entre 1991 até o ano atual, mas nada antes de 1991. Também não era possível viajar para o futuro, somente passear pelo passado e voltar para o ano presente. Ninguém sabia dizer exatamente porque havia essa trava, nem mesmo a IA RODEN-3.


Além disso, não era possível levar ou trazer nenhum objeto, mesmo que ingerido, nem mesmo roupas, calçados ou qualquer coisa não orgânica que não fizesse parte do corpo do viajante. Os que tinham qualquer tipo de prótese simplesmente não podiam contemplar aquele luxo. Assim eram excluídas qualquer possibilidade de furtos, tráfico ou uma simples lembrança física de qualquer época. As várias tentativas de levar ou trazer qualquer coisa foram frustradas. Os portais simplesmente não abriam.


Em cada ano no período entre 1991 e 2083, havia nos postos de recepção para os viajantes, roupas e utensílios que faziam parte do pacote de viagem, tudo sob medida e de acordo com o perfil de cada um.


Ainda assim, as viagens eram muito caras e muito procuradas por pessoas que acreditavam poder alterar o passado, criar paradoxos, consertar erros, jogar na loteria e outras muitas bobagens que com o tempo se mostraram inúteis e inalteráveis. Todas as tentativas de impedir tragédias, sejam elas quais fossem foram fracassadas.


Isso causou um impacto negativo no turismo temporal e apesar da queda brusca nas procuras pelas viagens, havia os nostálgicos, viúvos, órfãos e ricos solitários. Os que tentavam cometer qualquer tipo de crime ou suicídio, eram pegos antes de qualquer tentativa, pois o monitoramento de cada viajante era constante, inegociável e rígido.


Alguns tentaram engravidar mulheres no passado, acreditando poder criar algum paradoxo familiar, mas como já estava claro na literatura científica: era impossível qualquer tipo de alteração na história já estabelecida. Somente o futuro estava em aberto, talvez por isso ninguém poderia ter acesso a ele.


Com o tempo, a perda de popularidade foi inevitável e a queda na procura foi grande. Foi aí que as viagens no tempo se tornaram acessíveis ao público médio, com pouca diferença nos preços praticados para viagens comuns internacionais.


Além das viagens serem usadas para fins científicos e até mesmo criminais (vários crimes puderam ser esclarecidos), houve aqueles que buscavam todo tipo de entretenimento, desde aprimoramento nos estudos, conhecimento histórico até a oportunidade de conhecer seus avós na juventude.


A procura por eventos históricos, mega shows e jogos esportivos eram controladas para não haver o risco de superlotação, e como o período abrangia vários anos, dificilmente as pessoas procuravam os mesmos destinos e quando isso acontecia, deveriam esperar por uma vaga, as vezes aguardada por pessoas em todo o mundo.


Uma das coisas mais comuns eram a procura por shows, raves e até pequenas festas em clubs dos anos 90 e anos 2000, onde as pessoas se juntavam e realmente ouviam música, música feita por pessoas e não pelas IAs. Estive em uma festa pequena, na sala de uma casa, onde as pessoas se olhavam nos olhos, conversavam com verdadeiro interesse. Acho que era 1994 e não era difícil encontrar reuniões como aquela. Algumas lotavam garagens, outras ruas inteiras. Havia DJs, bandas e MCs. Era impensável que tudo aquilo deixaria de existir.


Ninguém se deu conta quando praticamente tudo o que era feito pela inteligência artificial estava substituindo o lugar do homem e se tornaria algo cada vez mais comum. Não que as máquinas fizessem algo melhor, mas elas atendiam a demanda desesperada de pessoas que procuravam o ineditismo a cada dia. O que foi feito ontem é velho hoje. O que é feito hoje será ultrapassado amanhã.


Rádios, podcasts, streaming, cinema, música, programas de TV, shows e festas. Tudo é criado e executado pelas IAs. Ias não reclamam, não cobram por cachês e não tem exigências excêntricas. Pior que tudo isso: os consumidores, nós humanos, não prestamos mais atenção ao que é feito, pensado e criado por humanos. Tudo o que queremos é preencher um vazio infinito, criado por nós mesmos.


Não vou dizer aqui tudo o que acontece durante esses anos de turismo temporal. Até por que tem coisas que ninguém atualmente entenderia e há muitas histórias que não passam de boatos e especulação. É uma pena que ninguém desta época possa fazer viagens pelo tempo. Apesar de tudo, tem muita coisa legal que acontecerá no futuro, mas será melhor esperar para ver.


Estou deixando este relato escrito para você saber um pouco de como tudo aconteceu (ou acontecerá no seu futuro) e que se não fosse por tudo isso, eu jamais teria conhecido você.


Eu não posso trazer ou levar nada comigo, mas estou levando a lembrança de todos os momentos aqui e a satisfação de poder ver, sentir e saber que houve um período onde as pessoas se surpreendiam com as próprias pessoas. Ouvir músicas pensadas, compostas e executadas por pessoas. Assistir, ler e ouvir coisas originais feitas com sentimento e emoção, com o intuito de se comunicar, entreter e tocar o coração de qualquer um disposto e aberto a entender aquela obra e arte.


Enfim, obrigado por me receber. Espero que um dia o mundo volte a valorizar o que realmente tem valor, principalmente a relação humana.


Espero encontrar pessoas como você em outras épocas.

 
 
 

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