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Contos de Nox #2: Um Momento no Vácuo

  • Foto do escritor: Spin
    Spin
  • 14 de abr. de 2023
  • 5 min de leitura


Era sua primeira vez naquela noite, naquele lugar. Primeira vez naquele evento, primeira vez com aquelas pessoas. Aos seus olhos, eram pessoas muito diferentes; descoladas, seguras de si mesmas, pareciam estar conectadas ao mundo, algumas à frente de seu tempo. Pareciam ser pessoas diferentes de seu próprio mundo, um mundo mais simples aos seus olhos; um lugar inferior.


Ele sentia que estava no lugar certo, pelo menos por um instante. Era uma pequena conquista estar naquele meio. Ali era o lugar onde as pessoas procuravam escutar algo diferente, fora dos padrões comerciais, até mesmo fora dos padrões dos clubes em geral. Ali era o lugar ideal para ele apresentar o seu trabalho, o seu som, o seu estilo.


Ele aguardava sua vez para tocar, tentando disfarçar o nervosismo. Estava acompanhado de dois amigos que sem saberem, lhe serviam de apoio dando a ele certa medida de segurança. O bar estava lotado, jovens mulheres sorrindo, rapazes bem vestidos, copos e garrafas para o alto. Ele pediu uma bebida na tentativa de amenizar sua ansiedade.


Na cabine, 3 jovens universitários tocavam uma música disforme, quebrada, dissonante. Um deles parecia estar usando um teclado de computador enquanto os outros pareciam tocar juntos em um CDJ. A pista estava cheia, o público parecia estar vendo uma peça de teatro, com certa satisfação em seus olhares. Alguns dançavam numa tentativa quase cômica de acompanhar aquele ritmo. Faltavam alguns minutos para terminarem sua apresentação.


Alguém bateu em seu ombro.

- E aí, meu querido? Obrigado por aceitar nosso convite. Vamos lá? Você entra agora!


Na cabine, ele tentou cumprimentar a todos. Um dos rapazes estava desligando e desmontando seu equipamento e mal o notou. Na pista, todos os olhos estavam direcionados para um só lugar; a cabine de som. Ele ignorou, na tentativa de controlar seu nervosismo. Ele sabia o que ia tocar, estava bem preparado. Em seu case de discos, havia várias ótimas opções para o começo de seu set.


Sem pensar muito, ele apanhou um dos discos com firmeza e segurança. Colocou em um dos toca-discos. Não parecia mais ser aquele jovem inseguro. Ao fim das saudações da apresentação anterior, ele esperou por um momento. Alguns segundos de silêncio. Um tempo em respeito aos profissionais que se apresentaram antes dele. Um tempo parecido àquele que damos ao experimentar algo com outro sabor.


Após uma sutil tomada de fôlego, ele apertou o start do toca-discos. O resultado não foi diferente daquilo que esperava. Era como se ele tivesse servido algo que o público esperava. A música começou lenta, mas com energia, cadenciada, quebrada. As primeiras batidas mais fortes começaram, com timbres sutis do que parecia ser algo distante, ao mesmo tempo nostálgico, ao mesmo tempo presente, ao mesmo tempo algo vindo do futuro. Era como se ele sacudisse seu lenço úmido com algumas gotas de um perfume especial, envolvente e inebriante, seduzindo a todos. Na primeira música, ele falava o idioma de todos e todos falavam seu idioma.


Ele não encarava a pista, sabia que todos o fitavam com interesse e curiosidade. Seu contato com o público era somente através da música, contato que estava bem estabelecido. Agora era manter este contato por mais 55 minutos, o que certamente não seria uma tarefa difícil.


O próximo disco já estava girando, entrando em uma mixagem imperceptível. A união das duas faixas gerou uma explosão de energia, que atingiu em cheio a pista, que respondeu em uníssono, feliz, aos gritos e pulos.


Então o som de repente parou. As luzes se apagaram. Tudo desligou, como se houvesse uma queda de energia. A cabine de som estava apagada. A pista estava escura, parecia vazia. Todo o lugar ficou em silêncio absoluto. Ele se viu completamente só. Ele se viu em um momento de completo vácuo.


Ele se sentiu como o astronauta David Bowman, de 2001, entrando em algo que parecia sólido, mas era um portal para outra dimensão. Tudo se movia e ele parecia estar parado, ao mesmo tempo em que ele se sentia em movimento enquanto tudo parecia estar congelado.


Ao contrário do que ele teria imaginado em algum momento de reflexão, sua calma estava intacta. Ele olhou ao redor e viu uma certa correria dos organizadores dentro da cabine. Nem tudo estava desligado. Além do bar, algumas luzes dentro da cabine permaneceram acesas. Alguns dos integrantes da apresentação anterior ainda estavam ali, terminando de recolher os seus pertences.


Ele fez um gesto que mostrou estar alheio ao que estava acontecendo. Um gesto que parecia mostrar ao público que aquilo estava fora de seu controle, mas estava tudo bem. Foram alguns poucos minutos de intervalo, talvez dois, mas que lhe pareceram durar uma vida.


O público pareceu compreender, pois ninguém saiu do lugar. Alguns conversavam distraidamente, como se aguardassem o término de um intervalo comercial. Outros seguravam garrafas vazias, talvez não querendo repor a bebida e correr o risco de perder o reinício da apresentação. Apesar do hiato, a atmosfera do ambiente parecia estar intacta.


Tudo religou novamente. As luzes se acenderam. Os equipamentos ganharam vida. O mesmo disco continuava no prato. Apesar da música daquele disco quase não ter sido tocada devido a repentina paralisação, ele achou que ela não serviria mais. Seria como continuar de onde parou. Não, o ideal seria aproveitar aquela pausa e apresentar um novo começo. Recomeçar de um lugar desconhecido, onde a surpresa seria revitalizadora e poderia assegurar a conexão com o público. Era um risco que ele decidiu correr.


Aos olhos atentos de todos, ele não começou imediatamente. Tirou o disco anterior, quase que teatralmente e o substituiu por outro. Desta vez ele encarou a pista. Olhou nos olhos dela, com firmeza e ousadia, como se dissesse “vocês estão preparados?”. Então soltou o disco com uma música sem batidas, sem elementos eletrônicos, completamente limpa, diferente daquilo que estava tocando antes, apenas com um vocal forte, acentuado e ritmado de Ragga, levando a todos diretamente para o mundo underground da Jamaica. O lugar explodiu em gritos numa energia alucinante, como se todos estivessem na rave de Zion comemorando sua vitória na guerra contra as máquinas.


Aquela uma hora de apresentação durou como se fossem alguns segundos, tanto para o Dj como para o público. Ele recolheu seu fone, seus discos e desceu da cabine com um sorriso modesto, discreto, mas seu coração queria sair pela boca de alegria e satisfação. Era aquele sentimento de realização, de pertencimento inerente ao ser humano. Um sentimento de conquista. Um sentimento de missão cumprida.


Após receber alguns cumprimentos, agradecimentos e pegar seu cachê, ele e seus amigos ficaram para curtir os outros djs e após algumas horas, decidiram ir embora.


No carro, de volta para casa, apesar de exaustos, eles riam e conversavam sobre tudo o que aconteceu naquela noite, sob o ponto de vista de cada um. Falavam das mulheres, das músicas, da excelente qualidade do som, das coisas que o próprio Dj não poderia ter observado, devido a sua concentração e foco.


Então, ao tocarem no assunto do apagão, um de seus amigos falou categoricamente:

- Cara, você não percebeu que eles desligaram o som de propósito? Eu não vi quem era, mas puxaram da tomada uma extensão que alimentava tudo. Eu não posso afirmar quem era, mas não há dúvidas de que fizeram isso para te boicotar. Ainda bem que não conseguiram!


Os três ficaram em completo silêncio e após uma noite de muito ruído, permaneceram assim, até o fim da viagem.

 
 
 

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